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Elson Andrade pergunta: Você é verdadeiramente de direita ou esquerda?

Ipiaú Online · 4 horas atrás · 18/10/2026 às 10:43

Elson Andrade pergunta: Você é verdadeiramente de direita ou esquerda?

ELEIÇÕES 2026: É chegada a hora da onça beber água com muita responsabilidade

Elson Andrade pergunta: Você é verdadeiramente de direita ou esquerda?

Nesta edição, o urbanista e arquiteto Elson Andrade propõe, oportunamente, uma reflexão crítica sobre a importância do voto autônomo e consciente, em meio a um cenário conturbado e inconsequente, no qual, muitos eleitores apoiam determinados grupos, posições e bandeiras políticas, mais por afinidade ou simpatia do que pelo conhecimento de seus fundamentos ideológicos mas profundos e consequentes.

Elson Andrade pergunta: Você é verdadeiramente de direita ou esquerda?

Da Redação, Elson Andrade, para o  IPIAÚ ONLINE. Matéria especial na cobertura das Eleições 2026.

A disputa presidencial brasileira de 2026 ocorre em um ambiente no qual grande parte do eleitorado acredita pertencer à direita ou à esquerda, mas frequentemente toma posições oscilante, ora para um lado, ora para outro, que contradizem os próprios princípios e moral que afirma defender. Isso acontece porque, para a maioria das pessoas, a identidade política não é construída a partir de uma compreensão profunda e consistente da Filosofia e Economia Política, mas sim por experiências pessoais, interesses imediatos, vínculos emocionais, lideranças de referência e percepções rasa sobre quem representa uma ameaça aos seus valores, pirão, ou ao seu modo de vida. É pois, o famoso Fla x Flu.

O filósofo John Rawls argumentava que uma sociedade justa deveria exigir que as regras fossem definidas antes de você saber que posição e condição teria, e votasse previamente, nas regras do jogo, avaliando, sem você saber que posição futura ocuparia nela. O famoso “Véu da Ignorância” (isenção) propõe que um indivíduo julgue instituições e políticas sem saber se nascerá rico ou pobre, empregador ou empregado, homem ou mulher, pertencente à maioria ou à minoria. O objetivo é impedir que o Direito como forma do interesse próprio, seja confundido com Justiça. Já Norberto Bobbio demonstrou que a principal diferença entre esquerda e direita está na maneira como cada corrente encara as desigualdades sociais. Enquanto a esquerda tende a considerar uma parcela maior das desigualdades como produto de circunstâncias históricas e passíveis de correção coletiva, a direita tende a aceitar uma parcela maior dessas diferenças como resultado natural legítimo das escolhas, “méritos”, tradições ou capacidades individuais.

Elson Andrade pergunta: Você é verdadeiramente de direita ou esquerda?

O problema é que a maioria dos eleitores não opera segundo esses referenciais teóricos. Na prática, despreparados que são, muitos se dizem de direita porque rejeitam determinados partidos e ideologias, e não porque possuam uma concepção coerente de Liberdade Econômica, responsabilidade individual ou compreensão do que vem a ser efetivamente o Estado. Da mesma forma, muitos se dizem de esquerda não por aderirem a uma Teoria da Igualdade ou da Justiça Distributiva, mas porque se identificam emocionalmente com determinadas lideranças ou porque rejeitam o campo adversário. A identidade política acaba sendo formada mais pela oposição a alguém do que pela adesão consciente a um conjunto de princípios universais. Isso é uma grande injustiça com aqueles que no passado deram suas vidas em conquistas políticas, para que homens e mulheres, brancos e pretos, letrados e analfabetos, tivessem o direito de votar livremente, e agora, ter eleitores que não votam em seu candidato, mas sim, contra outro. E ainda, que cerca de 1/4 dos eleitores que sequer vão às urnas, anulam seus votos, ou votam em branco.

Esse fenômeno produz situações aparentemente contraditórias. Há eleitores que defendem o livre mercado, mas apoiam subsídios e benefícios estatais multimilionários para os grupos aos quais pertencem, ou, dependem (os quais já somam R$ 900 bilhões). Há cidadãos que defendem a intervenção agressiva do Estado na segurança pública, mas rejeitam um parente morto fruto de bala perdida, mortes de inocentes sem explicação, ou, a presença estatal na economia. Outros defendem políticas sociais amplas, mas discordam de pautas historicamente associadas à esquerda. Em muitos casos, o critério utilizado não é a coerência ideológica, mas a utilidade percebida em cada situação.

                         

A polarização contemporânea aprofundou essa dinâmica. O eleitor já não pergunta apenas se uma proposta é boa ou ruim. Antes disso, pergunta quem a propôs. Quando uma medida é defendida por sua liderança favorita, tende a encontrar razões para apoiá-la. Quando a mesma medida é defendida pelo adversário, procura argumentos para rejeitá-la. O líder lacrador passa a moldar a ideologia do eleitor, e não o contrário. O resultado é uma inversão da lógica democrática: desperdício de bilhões em obras inacabadas por um, que são abandonadas pelos seus sucessor, adversário, e, princípios deixam de servir para avaliar políticos, e políticos passam a definir quais princípios devem ser aceitos. Tudo na base do oba-oba, ou, da adoração de pessoas de carne e osso que tentam se passar como mitos ligados à “divindade”.

Nesse contexto, a maior fragilidade do debate público não está na existência de divergências entre direita e esquerda, mas no abandono da coerência intelectual. Muitos eleitores exigem rigor e limites institucionais apenas quando seus adversários estão no poder. E inexplicavelmente, mudam e passam a defender a liberdade de expressão somente para aqueles com quem concordam. Cada parte que entra, se sente dono do todo. Exigem rigor contra a corrupção apenas quando o investigado pertence ao campo oposto. O mesmo cidadão muda de posição sem perceber porque está julgando pessoas, circunstâncias e não princípios.

O verdadeiro teste de maturidade política consiste em responder a uma pergunta simples: eu defenderia esta mesma regra se ela fosse aplicada contra o político de minha preferência? Essa questão dialoga diretamente com o véu da ignorância de Rawls e com a defesa da coerência democrática presente na obra de Bobbio. Quando a resposta é não, a pessoa provavelmente não está defendendo um princípio. Está apenas defendendo o seu interesse, posição circunstancial momentânea, ou, uma identidade de grupo. E faz isso, sem perceber a contradição de pouco tempo atrás.

E é aqui que as posições se dividem, entre o grupo dos sujos e o dos mal lavados. No acumulado dos últimos 12 meses, os gastos federais do Brasil com a dívida pública, a previdência e os programas assistenciais somaram cerca de R$ 2,48 trilhões, sendo a maior fatia destinada aos juros e serviço da Dívida Pública (aproximadamente R$ 1,16 trilhão, impulsionados pelos patamares elevados da taxa Selic), seguidos pelas despesas com a Previdência Social (cerca de R$ 1,03 trilhão, englobando o INSS, servidores civis e militares) e pelos programas de assistência social (cerca de R$ 290 bilhões, concentrados prioritariamente no Bolsa Família e no BPC/LOAS).

A grande disputa presidencial de 25 de outubro de 2026 não separa apenas candidatos. Ela expõe um conflito mais profundo entre o eleitor que utiliza a política para confirmar suas paixões e o eleitor que procura submeter suas preferências a critérios universais. O futuro da democracia dependerá menos da vitória de um campo ideológico específico, e mais da capacidade dos cidadãos de recuperar a disposição de julgar os próprios líderes e políticas públicas com o mesmo rigor que utilizam para julgar seus adversários.

Para quem deseja avaliar seu perfil político de forma mais objetiva, uma ferramenta amplamente utilizada é o teste do Political Compass, disponível em: https://www.canalmeio.com.br/painel-ideologico/  Ele não mede apenas o eixo esquerda-direita, mas também o grau de inclinação em direção à liberdade ou à autoridade, oferecendo uma visão mais sofisticada do posicionamento político individual.

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Da redação: Elson Andrade – que é arquiteto, urbanista, empresário desenvolvimentista, pós-graduado pelo Instituto de Economia da Unicamp.

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Fonte: Ipiaú Online.

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